Processos Pedagógicos em Elearning – Reflexão final

Num curso de mestrado com oito unidades curriculares que antecedem a dissertação, todas as temáticas têm uma importância relativamente ao contexto do curso. Se assim não fosse com toda a certeza não teriam sido incluídas no plano de estudos. Há, no entanto, aquelas que por uma razão ou por outra, acabam por assumir uma relevância maior e a quem o estudante dedica mais atenção. É o caso da unidade curricular Processos Pedagógicos em Elearning, lecionada pelo professor José Mota no 2º semestre do Mestrado em Pedagogia do Elearning, da Universidade Aberta.

E porquê tanta importância e tanto entusiasmo? Num curso onde o objeto principal de estudo e investigação é a Pedagogia do Elearning, uma unidade curricular denominada precisamente Processos Pedagógicos em Elearning chama, à partida, a atenção e incute, senão uma maior motivação, pelo menos uma curiosidade acrescida. Mas a uma partida segue-se sempre uma largada, uma corrida e uma chegada. E é durante o percurso que a motivação aumenta, alcança a curiosidade e com ela corta a meta a par. E porquê? A começar pelo contrato de aprendizagem, claro, objetivo, bem estruturado e equilibrado. E a acabar numa série de conteúdos, temas e atividades aliciantes. Tudo isto apoiado numa coleção cuidadosa de recursos disponibilizados que, a par com as pesquisas efetuadas, permitiram fazer de cada atividade um desafio.

Contudo, reza a lenda que não há bela sem senão. Uma série de contrariedades obrigaram a um percurso algo atribulado, forçando o sistemático incumprimento dos prazos estabelecidos e, consequentemente, uma menor qualidade nos produtos pedidos para conclusão de cada uma das atividades. Só a solidariedade dos colegas Sérgio Lagoa e João Brogueira e o incentivo e carinho do professor José Mota permitiram chegar ao final e terminar a unidade curricular, extenuado mas com a noção do dever cumprido. Para eles, colegas e professor, o meu obrigado.

A Temática I – A Pedagogia do eLearning, foi dividida em duas atividades: a) Pedagogia do eLearning e Papel do Professor Online; b) Personal Learning Environments. A atividade Pedagogia do eLearning e Papel do Professor Online implicou a publicação de 2 posts, centrados nas questões relativas à pedagogia do eLearning  e nas questões relativas ao papel do professor em contexto online. Foram disponibilizados, para leitura e reflexão, vários textos de vários autores: Terry Anderson & Jon Dron, Grainne Connole, George Siemens, Alec Couros, Rena Paloff & Keith Pratt. Por ser a primeira atividade e por envolver não só leituras diversas mas também a escrita, esta atividade revelou-se bastante interessante e motivadora.

No primeiro texto que produzi e que intitulei “Elearning – a tecnologia lado a lado com a pedagogia” são abordadas duas visões diferentes sobre as a evolução do ensino a distância: a perspetiva tecnológica e a perspetiva pedagógica. Com base nalgumas pesquisas e nos recursos da atividade, caracterizam-se os dois tipos de gerações e faz-se o paralelismo entre a evolução da tecnologia e o seu impacto da tecnologia nos modelos pedagógicos de ensino a distância, em larga escala adotadas no elearning. É inegável que as teorias o social-construtivistas e  conetivistas ganham maior expressão com o avanço das tecnologias que permitem privilegiar as interações sociais e centrar a aprendizagem no aluno.

No segundo texto, ao qual chamei “Ser professor em elearning“, caracterizo o professor online e estabeleço uma relação entre as práticas pedagógicas no ensino presencial, ainda fortemente centradas na transmissão de conhecimentos e no elearning, que privilegia os modelos construtivistas. O professor online é alguém que, além do mais, consegue criar a sua presença junto da comunidade de aprendizagem, sobretudo através das suas intervenções de negociação, moderação e orientação dos processos de aprendizagem.

Na atividade Personal Learning Environments foi solicitada a pesquisa e consulta de dois itens relacionados com os PLE e a anotação bibliográfica desses itens. Foi ainda pedido que publicássemos uma representação visual e comentada do nosso próprio PLE. Após uma pesquisa quase exaustiva, a anotação bibliográfica recaiu sobre um vídeo de Jordi Adell, onde este descreve a sua visão de PLE e sobre um texto de Linda Castañeda, que relata um estudo sobre uma experiência de introdução das TIC e desenvolvimento de um PLE, com estudantes do ensino superior presencial. Os dois itens revelaram-se bastante interessantes e mostram duas perspetivas diferentes do PLE: centrado na aprendizagem (Adell) e centrado no utilizador (Castañeda). Interessante o fato de uma “simples” atividade de anotação de bibliografia obrigar a reflexões profundas que, no caso, influenciaram mesmo a minha própria visão de PLE.

Apesar de não ter, até ao momento, dedicado muita atenção aos PLE, o tema não me era indiferente e já tinha feito alguma reflexão, ainda que superficial, sobre este novo conceito de ambiente de aprendizagem. Sem saber justificar, não conseguia entender a estranheza causada pelo fato de, em quase todas as descrições e representações dos PLE, o foco estar esmagadoramente centrado no utilizador. A dúvida dissipou-se ao visualizar a entrevista de Jordi Adell, onde ele explica e justifica porque é que, no seu entendimento, o PLE deve estar centrado na aprendizagem. Porque o PLE é uma forma de aprender, é um ambiente de aprendizagem, construído à “medida” de cada um mas com um objetivo central: aprender, quer pela consulta, quer pela partilha ou pela comunicação. Mas aprender… sempre!

Foi nesta base que nasceu a primeira representação visual do meu PLE que inclui (como não podia deixar de ser) a aprendizagem como núcleo central e a rede pessoal de aprendizagem juntamente com os recursos e fontes de informação como pontes para os serviços e ferramentas usados. Não foi fácil representar o PLE. Na perspetiva de que tudo está ligado com tudo mas que, se enveredasse por essa via, a representação ficaria demasiado confusa, senão mesmo ilegível, tentei simplificar ao máximo os conceitos e, com isso, cometi alguns erros, devidamente assinalados pelo professor José Mota na sua avaliação crítica. Um tema emergente e em constante evolução, a aprofundar em breve e que certamente dará lugar a uma nova representação, mais cuidada. Uma nota para o título que encabeça o gráfico: Personal Learning Network. É (foi) gralha mesmo. Um descuido provocado pelo cansaço e do qual só dei conta através do feedback do professor. Naquele momento e àquela hora o meu cérebro rodopiava de conceitos, qual carrossel repleto mas desgovernado. Ficará assim, nódoa em pano cru, até que a vergonha me vença e para que me lembre que há atividades que não se compadecem com distrações.

Na temática II a atividade proposta revelou-se um desafio simultaneamente enorme e desafiante: entrevistar um(a) professor(a) ou formador(a) online (diferente de fazer uma entrevista online a um professor) e, com base na informação relevante dessa entrevista, escrever e publicar um artigo científico, com cerca de 2000 palavras. Por força de algumas circunstâncias, esta atividade reuniu três colegas que, para o mal ou para o bem, ficarão umbilicalmente ligados até que alguma força superior os separe: João Brogueira, Sérgio Lagoa e eu próprio. Sem quase discussão os primeiros nomes avançados mereceram a imediata concordância do grupo, que se apressou a convidar os Professores Graham Attell e José Lagarto para a realização das entrevistas. Obtida a confirmação, rápida, cordial e repleta de entusiasmo, por parte dos convidados, foram elaborados os guiões que, após aprovação do professor José Mota, foram enviados aos entrevistados.

As entrevistas revelaram que um e outro, embora oriundos de culturas diferentes e lecionando em contextos pouco semelhantes, têm posições e linhas de ação coincidentes em muitos aspetos. Ambos privilegiam o apoio ao aluno e gostam de adaptar as práticas ao contexto. Attell refere que os PLE são importantes em qualquer contexto de aprendizagem e Lagarto prefere falar em tecnologia, tutoria e conteúdos ao invés de tecnologias de informação e comunicação. Um e outro revelam-se bastante céticos em relação à plena adoção de cursos online por parte das instituições de ensino superior. Contudo, paradoxalmente (ou talvez não) apostam no elearning como futuro sistema da formação e educação não formal.

Com tanta e tão rica informação, em discurso direto, a elaboração do artigo, onde o espírito de entre-ajuda entre os membros do grupo foi fundamental, revelou-se um exercício quase natural e simultaneamente pleno de satisfação intelectual e ultrapassou em larga escala (mais de 3000) o número de palavras pedido.

A temática III culminou a série de aprendizagens da unidade curricular, com a conceção de um curso online de curta duração (entre 3 a 4 semanas), com fundamentação das estratégias de ensino implementadas e das práticas pedagógicas adotadas. Apesar de nos últimos 15  anos me ter dedicado quase exclusivamente às TIC na educação, sou professor de Educação Visual e Tecnológica (EVT), a lecionar em horário completo na escola a cujo quadro pertenço. Foi pois, pelo menos para mim, natural que tivesse escolhido conceber um curso relacionado com a área em que sou docente.

Por exercer há longo tempo a função de formador no âmbito da formação contínua de professores e por estar recentemente ligado a um dos cursos que constam do plano de formação da Associação de Professores de Educação Visual e Tecnológica (APEVT), resolvi nesta atividade transformar um curso presencial, com 25 horas de duração, num curso inteiramente online, com duração prevista de 4 semanas e tempo estimado de 45 horas para a realização das atividades. O curso, que será realizado em ambiente moodle, desenvolve-se em 5 atividades distintas, contando como atividade o módulo de ambientação ao moodle e tem como objetivo a introdução de ferramentas digitais online no ensino da EVT e baseia-se no EVTux, uma compilação de ferramentas passíveis de serem utilizadas quer na disciplina de EVT (2º ciclo do ensino básico) quer ainda nas disciplinas de Educação Visual e Educação Tecnológica, que integram o currículo nacional do 3º ciclo do ensino básico. Apesar de não poder de vista o objetivo principal do curso, as atividades foram desenhadas tendo em conta crescente utilização das TIC na educação e a consequente necessidade de acompanhamento e enquadramento por parte dos professores. Assim, a 1ª atividade centra-se exclusivamente na análise, reflexão e debate das circunstâncias enunciadas e a 2ª atividade promove a pesquisa e reflexão que permitam conjugar alguns conteúdos de EVT com algumas das ferramentas do EVTux. Seguindo um modelo centrado no formando, mas onde (parafraseando Attwell) os processos são mais importantes, as atividades são diversificadas e convidam a uma forte interação entre os intervenientes, numa perspetiva socializante, tão cara às teorias sócio-construtivistas.

Foi uma atividade desgastante mas enriquecedora. Desgastante porque obrigou a uma reflexão exaustiva e simultaneamente a uma familiarização acelerada com a distribuição EVTux que, até ao início desta atividade, só existia em DVD e nunca tinha visto a luz…. do ecrã do computador. Enriquecedora porque a reflexão foi feita à custa da revisão de muitos dos textos disponibilizados como recursos da unidade, o que permitiu relembrar e aprofundar alguns conceitos. Simultaneamente, uma grande satisfação por, apesar de não ter sido o primeiro curso online que concebi, o ter feito de uma forma quase radicalmente diferente (para melhor, espero).

Em jeito de conclusão, direi que a frequência da unidade curricular Processos Pedagógicos em Elearning foi fundamental para o enriquecimento pessoal e será, com toda a certeza, muito útil não só na preparação e desenvolvimento da dissertação. Da mesma forma, a minha prática docente, essencialmente enquanto formador de professores, irá mudar, quer nas formações presenciais, online ou mistas.

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